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Caros leitores do blog Zap Músico,

Esse post vai tratar de um assunto muito importante para os músicos (e que também interessa à grande maioria das pessoas): a música. Ah, mas todo mundo sabe o que é música, você pode pensar, por que escrever sobre algo tão corriqueiro? Pois então eu lhes faço um convite para reflexão e pergunto: você já parou para pensar sobre o que é música? Ou melhor: já pensou sobre o que você entende por música? Será que a sua definição de música é a mesma que a de outras pessoas? Nesse post, vamos explorar elementos da linguagem musical e da música como manifestação estética para nos aprofundarmos melhor no entendimento das propriedades da música, e, talvez, termos um entendimento um pouco melhor do que ela é. Não pretendemos aqui falar sobre a etimologia da palavra, nem sobre o que dizem os dicionários de música, mesmo porque a definição de dicionários como o Grove, o mais importante dicionário de música, podem ser extremamente complexas e a discussão não caberia nesse post. Falaremos aqui da experiência humana com a música, e como essa experiência define (ou pelo menos contribui decisivamente para) o entendimento do que significa música. Quando a palavra “música” for usada, tenham em mente que ela se refere tanto à música instrumental quanto vocal. Quando for necessário, eu farei a distinção entre os gêneros.

Ideias gerais
Primeiramente, devemos desmitificar a ideia de que música é formada por uma sequência de sons organizados e que fazem sentido. Sobre esse senso comum, devemos perguntar: o que exatamente significa “sons organizados”? E para quem esses sons fazem sentido? O conceito “organizado” pode variar muito de cultura para cultura, e de pessoa para pessoa, então o que é realmente algo “organizado”? É verdade que na tradição de diversas culturas a música segue um esquema formal, e isso pode ser considerado um tipo de organização. Mas e as obras musicais que não tem sua organização planejada, e apresentam elementos aleatórios (vide diversas obras do compositor John Cage), ou obras que tem um determinado tipo de organização que muitas vezes não conseguimos perceber (ou seja, soam desorganizadas para nós, ainda que tenham coerência formal interna), como a música de algumas tribos indígenas, em que a precisão da coordenação das vozes e instrumentos não faz parte dos requisitos da performance, e que podem soar altamente “desorganizadas”? Não pretendemos aqui responder essas perguntas, apenas levantar um problema criado pelo senso comum. Organização musical, como se vê, é algo que, em princípio, não é fundamental para que a música seja possível, apesar da maioria dos compositores ocidentais adotarem procedimentos formais que contribuem com a ideia de organização de sua música (o que só funciona de fato em uma experiência estética se as pessoas percebem – consciente ou inconscientemente – essa organização).

Significados musicais
Percebemos também, que muitas vezes uma obra musical pode fazer sentido para uma pessoa e não fazer sentido para outra, ou pode ter sentidos diferentes para pessoas diferentes. Isso acontece com música do presente e do passado, e de diversas culturas. Nesse sentido, existe um aspecto participativo que é inerente às experiências de cada um com a música. Podemos afirmar que a música contém elementos que ajudam a entender práticas sociais e culturais de uma determinada comunidade, mas que muitas vezes não são acessíveis para pessoas de fora daquela comunidade. Quem escuta música participa ativamente do processo de construção de valores semânticos para aquela música. Pensem, por exemplo, em qual é o significado da música tradicional chinesa para um ameríndio brasileiro, e vice-versa? Dentro de suas culturas, suas músicas têm significados que transcendem a estética sonora, transformando-se em índices de representação social e cultural, mas para alguém que não pertence àquela comunidade, a música não tem esse mesmo significado e se resume, em princípio, na experiência estética dos sons, que muitas vezes são considerados “estranhos”. Sim, claro, existe estranhamento porque não existe familiaridade. Nesses casos, aquela música passa a representar, na maioria das vezes, valores associados ao “outro”. Dessa maneira, a música contribui para delinear culturas e representá-las, separando quem pertence e quem não pertence (essa ideia se dá em diversos níveis, ocorrendo em nações inteiras, onde se cultivam diversos gêneros musicais diferentes, ou mesmo em pequenos grupos dentro de um mesmo bairro, onde também se pode encontrar uma grande diversidade musical).

Como vemos, falar de música não é tão simples assim, e envolve, além da discussão estética, também o entendimento da função social da música e de como as pessoas podem atribuir valores pessoais para a música. Analise sua própria experiência com uma obra musical que você gosta. Em sua primeira audição daquela peça, você estava começando a conhecê-la, e sua experiência com a música era nova (ainda que muitos compositores, principalmente em música popular, utilizem fórmulas que são incessantemente repetidas, o que ajuda as pessoas a criar familiaridade com a música quase que instantaneamente, pois, em muitos casos, a maioria do que se escuta já foi utilizado inúmeras outras vezes em outras composições, mas recebeu uma roupagem um pouco diferente. Não faremos uma digressão maior aqui para não atrapalhar o fluxo da linha de raciocínio, mas esse é um ponto que será discutido em outro post no futuro). Entretanto, conforme você vai ouvindo aquela música em diferentes situações, a música passa a adquirir novos significados para você, e esses significados são pessoais, pois a sua experiência com aquela música é unicamente sua. Por outro lado, quando você experimenta a música com outras pessoas, essa música pode se tornar um identificador comum entre vocês, e permite a formação de identidades de grupo, ou seja, as pessoas se conectam por meio da música que ouvem.

Narrativas pessoais e de grupo
Nos casos acima, a música torna-se um elemento primordial na construção de narrativas pessoais e de grupo. Muitas vezes as pessoas ouvem suas músicas favoritas e lembram-se de momentos de suas vidas, de pessoas, de lugares, etc, e essas memórias são pessoais e intransferíveis; e no caso da experiência da música em grupo, pode haver memórias coletivas. Cada pessoa ou grupo tem as suas próprias memórias, que são, muitas vezes, totalmente diferentes, mesmo que a música que as evocou seja a mesma.

Mas quando o compositor escreveu aquela música, ele não estava falando de você ou do seu grupo, nem dos lugares que você visitou, ou das pessoas com quem trocou experiências. Como é possível, então, que a música te transporte para todos esses lugares? Bom, no caso da música que tem letra, as palavras podem sugerir experiências comuns a muitas pessoas, como romances, corações partidos, amizades, ou outros temas que fazem parte da vida da maioria das pessoas. Dessa forma, é mais fácil as pessoas se apropriarem do que a letra diz e identificarem suas experiências pessoais com as situações descritas na letra (É por isso que – além de alguns outros motivos – muita música popular fala de amor. Uma vez que esse sentimento é comum à maioria das pessoas, a identificação é rápida e a chance de sucesso comercial aumenta).

Em música puramente instrumental, não existe necessariamente uma sugestão para que as pessoas identifiquem o discurso musical com experiências pessoais específicas. Nesses casos, existe uma maior facilidade da pessoa atribuir, muitas vezes inconscientemente, valor semântico àquela música, de acordo com a experiência extra-musical que essa pessoa estava vivendo no momento em que ouviu a música. Em outras palavras, na mente daquela pessoa, a música é associada a uma situação real de sua vida. Por exemplo, se a música é ouvida em um momento de dor, no qual a pessoa perdeu alguém que amava, quando essa música for ouvida novamente, em uma outra oportunidade, muito provavelmente ela vai reviver os sentimentos de dor que foram experimentados anteriormente. Entretanto, pode-se ter diversas experiências com a mesma música, e essa experiências se amalgamam. Desse modo, a mesma música pode se tornar um índice de diversas experiências da vida da pessoa (não é incomum que uma pessoa se lembre de diversos momentos de sua vida quando ouve uma peça musical), sedimentando narrativas pessoais.

Kant e o belo musical
As ideias acima ajudam a esclarecer parte do modo como a música pode adquirir significados, mas antes de terminarmos, gostaríamos de tocar em mais um ponto importante no julgamento estético de uma obra musical: o que faz peça musical ser feia e o que a faz ser bonita? Será que ela é inerentemente bonita ou inerentemente feia, ou será que o conceito de beleza, assim como os significados musicais, também é algo que pode ser construído?

A questão da beleza estética em arte, que teve seu marco inicial mais importante com a Crítica do Julgamento, de Immanuel Kant, em 1791, envolve conceitos muito complexos. Apesar de ter sido duramente criticado por diversos outros pensadores depois dele, as reflexões de Kant nos dão um bom ponto de partida para entendermos a ideia do que é belo em arte. Um dos conceitos que Kant cunha em seu ensaio é a ideia da apreciação artística “interessada” e da “desinteressada”. A “interessada” é aquela na qual o observador tem um “interesse” na obra de arte antes de conhecê-la, o que faz com que ele atribua valores à priori para a obra. Dessa forma, sua apreciação não será apenas da obra em si, mas dos significados que ele já havia previamente criado para ela. A apreciação “desinteressada” é aquela na qual o observador não tem nenhum “interesse” à priori no trabalho artístico, e o aprecia pelo que ele é, ou seja, pelos elementos que são intrínsecos ao trabalho artístico. Em música, esses elementos são: forma, harmonia, melodia, instrumentação, etc (o ensaio Do Belo Musical de E. Hanslick, por exemplo, promove essa linha de entendimento estético).

Kant advogava pela apreciação “desinteressada”, e foi muito criticado, porque, como vimos nos parágrafos acima, é praticamente impossível que uma pessoa aprecie a arte sem ter nenhum “interesse”. O observador teria que apagar todas as experiências de vida que ele teve, e apenas assim poderia apreciar a arte como um objeto autônomo (só o fato da pessoa saber que alguém produziu aquele objeto artístico já cria um “interesse”).

Pois bem, meu ponto é que as pessoas constroem “interesses” para obras de arte (independentemente de qualidade dessa arte), principalmente em música, porque, devido ao hábito de se ouvir a mesma música em diversos momentos de suas vidas, as pessoas passam a atribuir valores semânticos muito pessoais para uma obra musical (vide acima), e passam a julgar a beleza da música de acordo com o que aquela música representa para a própria pessoa.

Essa é uma ideia que o modelo de avaliação estética de Kant rejeita. Kant dizia que não se deve julgar o objeto artístico como belo pelo prazer que ele nos causa, ou seja, não se deve dizer que algo é bonito porque ele causa prazer, uma vez que a beleza deve ser julgada pelos aspectos inerentes ao objeto artístico. Por exemplo: seguindo esse modelo, as pessoas não devem dizer que sua música favorita é linda simplesmente porque aquela música lhes dá prazer e lhes traz memórias reconfortantes. Se a música é linda, ela deve ser avaliada sem “interesse” pessoal.

Por mais que existam elementos interessantes no modelo kantiano, a verdade é que ele descarta todos os aspectos socioculturais que são tão importantes quanto a estética pura da arte para o entendimento mais honesto dessa obra de arte. Como esse post deve ter deixado claro (ou pelo menos incitado à reflexão sobre o assunto), a música deve ser entendida como uma manifestação que não apenas “é” algo em si mesma, mas também pelo que ela “representa”, e isso vai muito além da estética musical.

Portanto, uma vez que a pessoa vive em um contexto onde tem contato com diversos tipos de música, o conceito de belo – ou da “pureza” do belo – sem a participação do “interesse” de cada um, é utópico. Nesse sentido, o que é belo ou feio em música dependerá da experiência de cada um. Não existe um belo ou feio absoluto, mas belos e feios relativos. Dessa forma, podemos entender que a música “é”, enquanto linguagem, e que “representa” enquanto manifestação humana.

 
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Gabriel Ferraz, pianista e musicólogo
Idealizador do Zap Músico
O que é a música?

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